31.10.09

Do jeito que o diabo gosta


Aquele rapaz não sabe muito o que quer da vida. Não tem pai rico. Talvez tivesse uma bolsa que garantise sua permanência na faculdade de forma mais tranquila, apenas dedicando-se ao estudo. Mas, como bem inserido na realidade da maioria de nossos jovens, ou trabalha, ou paga o pato. Foi trabalhar pra garantir o sonho seu e de sua família, de ter um curso superior, e pensar em ser alguém na vida. Veste a camisa, a gola aberta, o óculos que ganhou de presente da tia, aquele sapato que não vê a hora de tirar quando chegar em casa depois da aula. Calor infernal em São Bernardo.

Garoto boa pinta. Mulher nunca foi algo do qual ele sentia falta: sempre teve uma para sí. Mesmo que não fosse o mais admirador dos "compromissos". Primeiro beijo aos catorze anos, quando ainda era um adolescentezinho meio tímido, mas em vias de libertar-se da própria inocência. Ou só apenas aparentava ser inocente. Não demorou muito pra ter sua primeira transa. Não achava aquela loira das mais bonitas, mas como já estava meio bêbado depois de umas rodadas de skol, não se importou com o que os outros pensariam. Capaz até de ter ganhado uns elogios como "cara, você realmente tem coragem". Se importaria mesmo se descobrissem que ele não havia topado.

A responsabilidade que demonstrava no trabalho não parecia ser igual a que demonstrava com as garotas. Da mesma forma que tratava uma caneta, desfrutava de uma mulher. Muitas passaram pela sua mão. Seu desejo, quando se enfiava nos pagodes e nas festas com os amigos, no meio das batidas do funk, era de se deliciar com o suor, as roupas curtas, as mãos, os tapas, as drogas, os choques e os gemidos do fim de noite na cama. Era mediante a reificação da garota que ele alcançava seu extase. De fato, ele nunca gostou de compromissos. Também preferia as descompromissadas, que não exitariam em realizar o seu desejo por qualquer temor que lhe viesse à cabeça.

É costume que se atribua questões de libertinagem sexual ao campo diabólico. Se é assim, este cara havia flertado há muito tempo o seu próprio pacto infernal. Somava-se aos entusiastas mais baconianos. Uma mudança por essência.

Por aparência, não. Porque, afinal, era homem trabalhador, que tinha um sonho, que dava orgulho à sua família, que procurava sustentar suas próprias mensalidades da faculdade.

E se pagava, tinha que estudar. Todo dia estava lá, risonho, conversador, e confessando as suas diabruras aos amigos mais chegados. Talvez até ganhasse alguns pontos com outras garotas se falasse de suas histórias, mas não valia a pena. Todo mundo faz, mas ninguem quer revelar.

Quem sabe por conta deste segredo, desta máscara que sustentava com pleno ar de naturalidade, é que o mesmo se sentiu na liberdade de se juntar àquele aglomerado de moleques universitários que, alçando a eles mesmos os ares da autoridade moral, irromperam e pararam às bordas das passarelas e das escadarias para assoviar, chamar, gritar, xingar, aquela moça loira que estava alí, em aula, com um vestido rosa, de mini-saia. Olhos grandes, sorriso sarcástico, e um berro:

PUTA! PUTA! PUTA! PUTA! PUTA!

Havia selado, alí, seu pacto definitivo com o inferno.

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Ps: Justificando o machismo, o preconceito e a hipocrisia, a Uniban publicou, na data de hoje, 08 de novembro de 2009, nota em que informa o desligamento de Geisy Villa Nova Arruda do quadro discente da universidade, fazendo menção insignificante aos alunos que participaram desta cretina palhaçada e ainda criticando a forma como a mídia abordou o episódio.

A nota segue no link: http://blogs.r7.com/querido-leitor/files/2009/11/UNIBANanuncio2.JPG

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Ps2: A Uniban revogou a decisão de expulsar a aluna, conforme nota publica na ultima segunda-feira, 09 de novembro. No link encontra-se a notícia:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u649827.shtml

Ps3: No protesto que houve ontem, 09 de novembro (já programado antes da divulgaão da nota da Uniban revogando sua decisão do fim de semana) haviam estudantes dentro do campus que vaiaram a manifestação contra a decisão sexista e falso-moralista da universidade. Isto é atitude ou complacência?
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u649934.shtml

10.10.09

Não se esqueçam dos hondurenhos!


Nos ultimos dias as manchetes distoaram bastante do que era o tema da vez a algumas semanas atrás: o Rio foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016; o Obama ganhou o Nobel da Paz; Descobriram os culpados pelo vazamento do ENEM; A seleção brasileira segue arrebentando no mundial sub-20; etc, etc, etc...

Por curiosidade, resolvi procurar as mais recentes notícias sobre os fatos políticos ocorridos em Honduras, uma vez que o país continua em uma aguda crise política a qual todos nós tivemos acesso mediante os noticiários. Assim, me informei de que a OEA intermediou reuniões entre representantes do governo interino e do presidente deposto; que a ONU denunciou a contratação de mercenários por famílias hondurenhas, que alegariam o desejo de se "protegerem da violência que pode irromper"; que a pressão internacional pelo retorno de Zelaya aumenta, enquanto que Micheletti resiste a abrir mão do poder obtido através do golpe, recusando-se à negociação do cargo; que o governo golpista anunciou a revogação do decreto de limitação da liberdade de imprensa e manifestação, mas que ainda não foi declarado no diário oficial (o qual me leva a entender que tão cedo não será revogado, tratando-se apenas de retórica); que nos ultimos três dias ocorreram novos conflitos entre policiais e manifestantes pró-Zelaya; entre tantos outros fatos que, por mais que pareçam descritos de maneira simplista, precisam ser colocados às nossas vistas: não se esqueçam dos hondurenhos!

É preocupante, extremamente preocupante, imaginar que em tempos de valorização dos direitos humanos e avanços populares na política latino americana, tenhamos de lidar com esta sujeira burguesa que deflagrou um golpe de Estado neste país. E possivelmente muitos por aí já pensam: a esta altura do campeonato, não há mais importância em se falar de Honduras, um paísinho perdido no meio da América Central. Outros, ainda, possuem a audácia de falar que o golpe não é golpe, mas a defesa constitucional das instituições democráticas hondurenhas. Balela conservadora!

Obviamente, não significa que havíamos evoluido tanto assim em termos de democracia: se golpes novos não foram deflagrados, em contrapartida as repressões internas mantiveram-se a todo vapor. Os estudantes do Brasil e do Chile que o digam. São as alternativas constantes do Capital e do Estado capitalista de manter a coesão social de seu projeto na disputa do consenso e mediante a repressão.

Esta abordagem "por cima" do assunto tem, na verdade, uma intenção de realizar uma mea culpa, talvez comigo mesmo, por conta da minha ausência neste blog de tratar assuntos de fato preocupantes para a política nacional e internacional. Por tanto, deixo aqui o meu recado, o qual espero completar futuramente com novas análises, mas que deixo por saber que a barbárie não está longe de nós, e que é necessário todo apoio a luta popular contra o autoritarismo que insiste em permanecer na cultura política latino americana:

Não se esqueçam dos hondurenhos!

3.10.09

Um projeto a ser disputado


Um anuncio. Um envelope. Um sonho. E num piscar de olhos, a euforia tomou conta da população brasileira.

Sim. As olimpíadas de 2016 ocorrerão no Rio de Janeiro. A primeira olimpíada a acontecer em terras verde-amarelas. E também, um evento que será sediado de forma inédita em território sul-americano.

É inspirador ver a alegria presente nos rostos, nas imagens e nos textos dos brasileiros (sim, falo dos jornais, do sites, das discussões no Orkut, nas manifestações no twitter, entre outros mecanismos que a web nos permite visualizar). Mas também já se manifestaram as posições mais pessimistas, que colocam em xeque a disposição estrutural do país, os gastos excessivos, etc. Há até quem diga que não adiantará de nada ter estas datas marcadas: o mundo acabará em 2012 mesmo...

Nos próximos sete anos, não faltará assunto para se explicitarem divergências dos mais diversos graus. Ainda mais porque, perto do final deste caminho, há um copa do mundo prevista em nosso país.

Porém, é justo e necessário que se façam ponderações equilibradas quanto a esta nova etapa esportiva, porém (e principalmente) política que envolve o Brasil.

O legado pan-americano não concedeu vitórias de caráter político-social ao Rio de Janeiro. A começar pela limpeza social das ruas em prol de uma estética turística mais adequada para o evento, bem como a intensificação da vigilância das comunidades carentes, tudo isso mediante a instrumentalização e reforço do aparato repressivo do Estado, o qual foi constantemente denunciado por movimentos sociais e grupos de direito humanos. Além disso, os espaços esportivos construídos especialmente para o Pan encontram-se hoje às moscas (com uma exceção, ainda que capenga, do Estádio João Havelange, mais conhecido como "Engenhão"). Vale lembrar, ainda, das denuncias de superfaturamento das obras para a realização dos jogos. E acrescento algo que não costuma entrar como argumento na discussão da grande mídia: a orientação posterior dos projetos esportivos para fins sociais, que de fato não ocorreu. Não bastasse a cidade não ter passado por melhorias infra-estruturais e da qualidade de vida da população carioca, algumas estruturas como a Vila Olímpica foram totalmente entregues às mãos do capital privado.

Se agora temos em nossos braços a chance fantástica de sediar um evento olímpico em nosso país, é necessário que se reflita com cautela sobre as possíveis consequências deste evento após 2016. Queremos apenas permanecer no discurso generalista da evolução e dos investimentos, a ser registrado nos marcos da lógica do capital, ou alçaremos de fato um desenvolvimento de caráter significativamente social após os Jogos? É a partir deste questionamento que se deve não apenas alertar, indagar, mas também se propor uma batalha em torno do referencial político e social dos jogos. Se o projeto olímpico brasileiro não tiver uma orientação clara e progressista quanto ao projeto social que pretende, teremos sorrisos, festas, e a permanência contínua deste país no calabouço do capital e da desigualdade. O projeto olímpico deve estar em disputa!

Os dados estão lançados. Ainda teremos muito o que ver até 2016. E o que lutar, também.